Eu ainda vejo a luz invadindo o horizonte, mas pensando bem, talvez seis palmos seja muito fundo para sentir qualquer brisa e eu esteja apenas delirando. Essa luz que não quer ir embora não me deixa dormir e parece que estão brincando comigo, pois toda vez que minhas pálpebras sucumbem ao cansaço a luz fica mais forte, forçando-me a abrir os olhos. Porém toda vez que os abro, a única sensação que tenho é de ofuscamento. Sinto que às vezes estou perto de achar as perguntas para minhas respostas, quando na verdade gostaria de achar as respostas para minhas perguntas. Lembro de toda minha luta para que as pessoas fossem ensinadas a perguntar, e quando percebo o resultado de todos esses anos, lágrimas vêm aos meus olhos. Noite inteira, noite fria, noite calada, espero por você, espero pelo seu apreço e sua mão. Não sei se estás escondida nas sombras desse infinito túnel, ou se você realmente não está aqui, mas eu ainda consigo, ainda consigo sentir seu calor me dizendo para seguir sempre em linha reta, que meu caminho ainda está incompleto e que minha luz ainda precisa ser maior que a que me ofusca.
Eu a vejo, sempre que fecho meus olhos. Vejo seus cabelos vermelhos brilhando, vindo a mim, conquistando-me. Toda vez que você vem me visitar, eu tento te seguir, porém eu não tenho forças para me mexer, nem tenho palavras para gritar. Eu já me acostumei a perder os momentos, mas me recuso a esquecer os vestígios de que você não seja só mais uma ilusão. Quando seu calor vem a mim, sinto o gosto invadindo minha boca, sinto suas palavras percorrendo meu corpo, e uma voz me dizendo para deixar as cortinas abertas, que a peça ainda não acabou.
A madrugada passa rápida como um navio que passa despercebido num belo mar azul. Amanhece e eu ouço um barulho estranho. Um barulho de metal batendo em algo suave. Não sei ao certo o que é, mas parece que as sombras já não existem, e a luz abaixou. Eu consigo enxergar, consigo focar, mas ainda não vejo nada além de um pequeno ponto de luz bem distante. Eu procuro por aquele vulto que sempre me trouxe esperança, mas o barulho contínuo, estridente e viciante não me deixa concentrar. Pouco a pouco eu sinto aquele cheiro de jasmim que me acordou, mas não entendo o porquê disso. Passam algumas horas e a noite se acalma, não consigo ver, ouvir ou sentir nada, só me perco em meus pensamentos e arrependimentos. De repente um vento frio toma proporções gradativas ao passar pelo corredor do túnel e sinto que vou congelar, parece que o ditado estava errado e a esperança não é a última que morre, e sim a última que te abandona.
Durmo. Sem prazer, porém sem dor. Sóbrio, mas com o rosto molhado de minhas próprias lágrimas. Naquela hora consegui ver meu passado inteiro, todos os sóis com qual me aqueci hoje estavam sobrepostos pelas nuvens que nublam meu futuro. Eu não contava que sóis nada são comparados à lua, que com sua singularidade ainda tem seus raios mais fortes e mais cheios de luz e vida. Acordo e sinto que você por um breve momento duvidou que eu estivesse mesmo ali embaixo e parou, simplesmente parou. Mas a noite chega logo, quase não daria tempo para me preocupar, mas a saudade foi instantânea. Ouço seu barulho, ouço suas preces, e o calor lunar me toma por completo. Mais uma batida, uma batida forte, e a luz agora começa invadir o espaço por cima, não só por trás. Mas é uma luz diferente, uma luz verde, mais aconchegante, linda. Uma luz de uma forma vital e essa luz toma forma. Forma de um sorriso terno, que se desfaz suavemente ao pronunciar um doce som, cantando que aquele não é meu último ato.



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